
Etanol da Cana: valiosa energia
OS DESAFIOS DO ÁLCOOL COMBUSTÍVEL DA CANA-DE-AÇÚCAR RUMO À CONQUISTA DE MERCADOS MAIORES >>>
Considerado por muitos como o melhor biocombustível do planeta, o álcool extraído da cana de açúcar (agora propagado mundialmente com a alcunha técnica de “etanol”) encontra-se numa bifurcação que, dependendo dos rumos tomados, poderá levá-lo a duas situações: ou se tornará (finalmente) uma desejada e valiosíssima ´commodity´ de amplitude global ou continuará como fonte energética secundária no faminto ambiente dos combustíveis. //// Altos e baixos – Incorporado à economia brasileira nos anos ´70 com o famoso programa “Proálcool”, o etanol é campeão em ciclos que se alternam entre bonanças para a indústria sucroalcooleira e apreensão para essa mesma turma geradora de bilhões de dólares em negócios dentro e fora do Brasil. Odiado por alguns gênios do setor automotivo, como o Dr.João Amaral Gurgel – que fabricou carros em fibra de vidro e outros modelos elétricos com o seu próprio nome – o etanol, em seus processos primários de fabricação, contradizia a aura de ´ecologicamente correto´ pela relação empatada da energia gasta na produção versus o número de quilo-calorias disponibilizado para a queima como combustível. João Gurgel atacava essa deficiente equação de produtividade, em suma, detestava carros a álcool, apesar de ter disponibilizado modelos assim no final de sua carreira. Já o (outro genial) Henry Ford, amava o seu eficaz etanol de milho que proporcionava invejável mobilidade ao seu inimitável “Modelo T” com alta taxa de compressão advinda justamente dele, do ´milagroso´ etanol. Ford foi o primeiro a testar esse tipo de combustível. //// DURA CRUZADA - Sua sina, apesar dessas oscilações preocupantes, tem um lado bom para o País. Hoje, obviamente produzido com altíssima tecnologia e com muito menos agressão ao meio ambiente, o etanol é uma espécie de bandeira nacional líquida, uma eterna arma na nossa economia e, claro, mereceria elevar o Brasil ao posto de senhor absoluto na produção, só que, além do concorrente direto, o poderoso álcool de milho norte-americano, da (ainda amada) gasolina e do óleo diesel (infelizmente aqui queimado com altíssimas e cancerígenas doses de enxofre…), o nosso etanol já encontra hoje um novo inimigo: o carro elétrico. ////COMO SERÁ? - Já é! Os propulsores elétricos nada mais são do que motores movidos com a energia desprendida de baterias de íons de lítio, ainda caras, mas em preço avassaladoramente em queda devido a uma demanda impressionante por esse tipo de tecnologia, ressalte-se, muito maior do que carros a combustão. //// OPINIÃO - O renomado jornalista Sérgio Berezovsky, editor geral da Revista Quatro Rodas, comenta o tema. “Carros elétricos começam a se tornar uma realidade palpável, muito antes do que o mais otimista dos ambientalistas poderia prever. A tecnologia da produção de baterias avança, bem como a disposição das montadoras em produzir versões mais próximas do perfil e do bolso do consumidor, ainda assim, há um longo caminho a ser percorrido. O motor combustão ainda vai reinar por muito tempo…”, destaca Berezovsky. A mesma opinião é compartilhada pelo atual Presidente da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), Jackson Schneider, que disse em recente entrevista à rádio CBN que essa briga dos combustíveis fósseis contra as energias ´limpas´, deverá entrar num acordo. Schneider acredita que os híbridos (movidos a gasolina e/ou etanol + baterias) deverá ser o consenso a se chegar. Pedro Robério Nogueira, Presidente do Sindaçúcar-AL (Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool no Estado de Alagoas) também compactua da opinião de Berezovsky e de Schneider. “Acho que os veículos elétricos ainda não são um obstáculo ao nosso etanol da cana de açúcar, inclusive por que, no capítulo da eficiência energética, o etanol brasileiro já foi experimentado e testado à exaustão, comprovando-se um excepcional doador de energia. Os carros elétricos ainda possuem custo muito alto de produção e, numa perspectiva realista, imagino que o etanol poderá entrar nessa equação inclusive como um ótimo doador energético, funcionando em parceria com as baterias dos veículos elétricos”, ressalta Nogueira. Jorge Meditsch, veterano jornalista paulistano, ex-editor executivo da Revista Época e atual editor do site Autoestrada.com.br, mostra seu ponto de vista sobre o assunto. “No momento e nos próximos anos, não vejo um conflito entre o álcool e os carros elétricos. O carro elétrico, seja híbrido ou ´plugin´, deverá começar a despontar nos países ricos, por causa do preço elevado. As baterias ainda são muito caras e só devem baratear à medida em que a escala de produção crescer muito. Paradoxalmente, em muitos desses países, a eletricidade é gerada principalmente pela queima do carvão, o que diminui o impacto ambiental positivo do carro elétrico. No Brasil, onde a maior parte da energia elétrica é produzida pela força hidráulica, eles fariam uma diferença muito maior. A meu ver, o etanol é uma solução provisória, pois é usado em motores de baixa eficiência. É possível fazer motores mais eficientes, mas o custo disso é muito alto. Também acho que a solução, a médio prazo, serão os híbridos, seja qual for o seu tipo (eletricidade + gasolina, diesel ou etanol)”, conclui Meditsch. //// FUTURO - Logicamente, esse tema ainda causará a abertura de amplos debates. O etanol, por exemplo, é menos danoso ao meio ambiente (em relação ao efeito estufa) e mais produtivo na relação litros/hectare do que o etanol do milho, mas, os resíduos oriundos dos motores de Ciclo Otto (gasolina, gás GNV, álcool/etanol e diesel) são os grandes responsáveis pela poluição atmosférica e, a reboque, causadores de doenças respiratórias graves, fatos mais do que comprovados principalmente nas cidades grandes. Gigantes como a Volkswagen, por exemplo, já discutem como será a mobilidade automotiva no ano 2028. A preocupação com o EcoDesenvolvimento é enorme e tornou-se pauta obrigatória nos governos do mundo inteiro e nas grandes corporações industriais que querem, de alguma maneira, dar uma satisfação de suas atividades. A briga continuará grande, pois as reações humanas estão mudando em relação à natureza, além de que, ninguém suporta mais as condutas irresponsáveis contra o Planeta Terra. A conciliação inteligente no uso das energias disponíveis terá que ocorrer, com ou sem etanol, com ou sem baterias elétricas, mas com muita racionalidade… I FA (Foto: Ricardo Lêdo)