
Vettel: brilhante no final, mereceu o título
Alemão, 23 anos e despreocupadamente talentoso: este é Sebastian Vettel, o mais jovem piloto a conquistar um campeonato mundial de Fórmula 1. //// Largando na Pole Position e mantendo a mesma posição até a última volta, Vettel não deu a mínima para os oponentes e, numa combinação de ótimos resultados, ganhou a prova de Abu Dhabi sagrando-se o grande vitorioso do ano. Mereceu. Apesar da inconstância de resultados e da imaturidade (que ainda o leva a cometer vários erros), fez o dever de casa certinho e papou o título. Foi a conquista mais óbvia e certa que poderia ocorrer, superando, talvez, o massacre promovido pela dupla Senna-Prost com suas imbatíveis McLaren-Honda entre o final dos anos 80 e início da década de 90. A vantagem entre a RBR e os outros foi, desde a primeira corrida, colossal. O abismo de superioridade desse time foi até maior do que o da extinta Brawn com Barrichello e Button, portanto, se a equipe RBR não tivesse conseguido conquistar o título, seria o mesmo que a Seleção Brasileira de futebol perder para um time de várzea numa final de Copa…, nada mais que isso. Viu-se durante as 19 provas, duelos secundários entre (principalmente) McLaren e Ferrari que até conseguiram vitórias e poles, mas o conjunto da RBR (motor Renault + aerodinâmica impecável em retas e curvas) foi imbatível. Vettel foi competente, mas ainda está bem longe de ser brilhante feito um Ayrton Senna ou Nélson Piquet. Conseguiu largar na frente em 10 das 19 corridas de 2010, um feito e tanto, afinal de contas, dez Pole Positions já o colocam num patamar onde o primeiro degrau está marcado com a palavra “respeito”. Jovem, descontraidamente rápido, Vettel merece todos os louros da vitória de hoje e já entrou para o seleto clube dos campeões. //// QUEM FEZ MILAGRE? Admiro Fernando Alonso pelos seus dois títulos mundiais (em cima de Michael Schumacher) a bordo (na época) de um Renault bastante limitado. Há uns anos assisti o espanhol dar um show em Interlagos naquele bólido azulzinho. Chegava ao fim da grande reta com a cabeça trepidando tanto que eu imaginava que a suspensão estivesse com problemas. Naquela época já era constante como um relógio suíço e assim continua até hoje. Em 2010, não pontuou na Malásia, na Inglaterra e nem na Bélgica. Alguns pontinhos numa dessas teriam dado um (também merecido) tricampeonato a Alonso. Já o Vettel – de tão inconstante que foi – não marcou pontos na Austrália, Turquia, Bélgica e Coréia do Sul. Mesmo assim, por causa da superioridade enorme do seu carro, faturou o título com 4 pontos a mais que o asturiano. //// ÁH QUE SAUDADES QUE EU TENHO… Na minha opinião, a Fórmula 1 perdeu muito o brilho nos últimos 15 anos. Essa história de restrições de trocas de pneus e proibição de abastecimento, por exemplo, nivelaram a coisa de um modo absurdamente sem sal. Talvez um jovem de 18 anos pouco entenda do que eu digo, mas, era muito mais emocionante assistir tomadas de tempo num sábado (treino oficial final) com carros com motores preparados só para 1 volta super-rápida! Existiam motores (apenas) para os treinos e motores para as provas, sem contar que as estratégias de definição de quantidade de combustível para a largada, número de Pit Stops e segredos de preparação davam muito mais sabor para quem assistia. Hoje, é impressionante ver os carros rodando as voltas com semelhanças de desempenho em centésimos de segundo! Fim da picada… Na Fórmula 1 jorram rios de dinheiro e essas contensões só têm atrapalhado. Lógico: os carros estão mais seguros, mas a mesmice da performance é algo cansativo de se ver, principalmente para quem, assim como eu, viu – e escutou!! – o som das belas máquinas dos anos 80, com mais de 1.000 cavalos, turbinadas e equipadas com enormes carburadores. O ronco do Mclaren-TAG Porsche guiado pelo tetracampeão Alain Prost ainda está guardado na minha memória afetivo-automotiva. Vi aquele lindo carro acelerando em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Show à parte da F1, outras épocas… //// SORTUDO DO ANO – A morte passou bem pertinho de Michael Schumacher neste domingo, 14 de novembro. Logo na primeira volta, o alemão heptacampeão mundial, rodou e ficou na contra-mão esperando a pancada. E ela veio por intermédio de Vitantonio Liuzzi, que raspou o bico do seu carro na cabeça de Schumacher. Se pega, tal qual François Cévert (piloto francês que morreu degolado num acidente de F1 em 1973), ele teria morrido na hora! Mas, graças a Deus, está vivo e com contrato renovado para 2011. Neste ano só cumpriu tabela e terminou em nono lugar. //// FRIGIR DOS OVOS – Mark Webber, companheiro de Vettel, há duas semanas tinha mais pontos que ele. Também foi extremamente inconstante e entregou o ouro facilmente. Uma coisa há de se reconhecer: o leal espírito esportivo da RBR, que não permitiu joguinho de equipe e venceu o campeonato. Nisso a Ferrari decepcionou. Felipe Massa teve um péssimo ano (inclusive recebeu ordens para deixar Alonso passar…), mas, mesmo assim, ficou na sexta colocação final. Nunca mais foi o mesmo após o acidente oriundo de uma mola que se soltou do carro de Barrichello, em 2009, perfurando a sua cabeça. Além disso, a divisão de espaço com Alonso foi amplamente prejudicial ao brasileiro. Cantam por aí que Massa não conseguiu se adaptar aos pneus Bridgestone… e esse é o motivo da baixa performance. Vamos ver como fica em 2011, novamente no cockpit de uma das Ferraris, agora com pneus Pirelli. Um dos protagonistas do dia – e responsável por tirar o título de Alonso – foi Vitaly Petrov. Terminou o ano com 27 pontos em 13º lugar e não tinha, obviamente, chances de ser campeão. Com uma Renault equilibradíssima, não permitiu a ultrapassagem de Fernando e teve seu dia de glória. Alonso reclamou após a bandeirada. Uma reclamação que ninguém entende, além dele próprio e, quem sabe, do piloto russo no futuro, numa condição similar. //// Apesar de tudo, o ano foi movimentado na Fórmula 1, que, pela primeira vez teve quatro pilotos em condições de ganhar o campeonato, decidido na última corrida. Vou filosofar: o ano da F1 foi ruim, mas foi bom. (Foto: divulgação Globo.com/Reuters)