
Lendários modelos marcaram época no Brasil
O termo “Jipe” (aportuguesamento da palavra inglesa “Jeep”, que representa uma sub-marca da empresa norte americana, Chrysler) tornou-se, no Brasil, sinônimo de veículo com desenvoltura fora-de-estrada. O simpático (e praticamente indestrutível) carrinho nasceu no final dos anos 30 e início da década de ´40 por solicitação do Exército dos Estados Unidos. Naquele instante uma concorrência formada por três empresas, Willys-Overland, Ford e Bantam foi vencida por esta última. Com o aumento da demanda por um veículo que suportasse peso e suplantasse, com certa facilidade, terrenos difíceis, Willys e Ford também começaram a produzir seus carros. Há dados que indicam que, durante o pico desse conflito mundial, cerca de 500 Jeeps americanos diariamente eram fabricados (ao custo médio unitário de US$ 730) e enviados para os ´fronts´.

Linda cena urbana com esse veterano de guerra...
Da Guerra aos coqueirais - O Brasil importou (e também fabricou) alguns deles por aqui. Basicamente, os modelos Willys e posteriormente, Ford, fizeram – e ainda fazem – a alegria de muitos aficionados pelo País. Especificamente, as versões “CJ3A”, “CJ3B” e “CJ5” foram os que fizeram mais sucesso em terras nacionais. Como dito, os fãs da marca são muitos e, geralmente, apaixonados ao extremo pela conservação de seus pupilos. Numa bela tarde de verão alagoano, desfrutei da companhia de três verdadeiros amantes desse carro. Os médicos Luiz Antônio Tenório de Albuquerque e Luiz Duarte Araújo e o engenheiro mecânico (e construtor, adivinhe: de jipes…), Marco Antônio Gonçalves Pontes, que abriram suas garagens e promoveram despreocupado passeio pela orla de Maceió.

Marco Pontes, Luiz Antônio (centro) e Luiz Duarte (dir.): turma bacana
Boas recordações – “Aprendi a dirigir num Jipe 1951 e isso é o tipo da coisa impossível de se esquecer. Hoje tenho um modelo do mesmo ano”, comenta, sorridente, o Dr.Luiz Antônio que tem como hobby, colecionar carros. Com lista extensa no currículo de veículos fora-de estrada, o pacato médico relembra com exatidão de todos que já passaram pela sua vida, dentre eles, Troller, Suzuki Samurai, Jipe Ford CJ5 1976, outro Jipe 1980 (com motor de Maverick 4 cilindros) e por aí vai… “Jipe é carro esquisito e carismático. Até os seus motores ganhavam apelidos: tinha o 4 cilindros ´Continental´ e também o ´Go Devil´, lembra…?”, destaca, se divertindo, Dr.Antônio.

Jipão 1963 todo inteiro, inclusive com o banco traseiro intacto
Minúcia dos detalhes - Também colecionador de carros antigos e, obviamente, fã dos Jipes nacionais, Dr.Luiz Duarte Araújo divide sua vida entre a rotina do consultório, o convívio com a família e horas e horas dedicadas ao hobby de restaurar e manter carros. Talentoso artesão, Dr.Duarte encanta as pessoas com suas belíssimas (e perfeitas) miniaturas, construídas em paciente labor nas horas vagas. Claro: ele já fez todos os “Jeeps” que foram fabricados até hoje numa escala 25 vezes menor do que a original. Com memória invejável de datas e números, o quieto Luiz Duarte sabe de cor até as séries dos jipes que rodaram no Brasil. “Em 1953 o motor do jipe tinha o apelido de ´Hurricane´. A Willys Overland foi fundada em 26 de abril de 1952 e a partir de 1954 essas maravilhas começaram a ser montadas aqui no Brasil. Já em 1967 a Willys foi comprada pela Ford e o nosso Jipe nacional foi fabricado até 1983”, sorri o médico que tem o histórico da marca totalmente gravado na mente.

Acredite: esse verdinho aí da frente foi feito em casa, à mão
Trabalho inacreditável - Para completar o trio, Marco Antônio Gonçalves Pontes também é o que se pode chamar de um fascinado pela história dessa marca automotiva. Engenheiro mecânico, nos últimos cinco anos, Marco realizou um feito, aliás, dois, quase inacreditáveis: construiu na garagem da própria casa duas réplicas idênticas de Jipes nacionais. Um 1951 e outro 1954 que, de tão perfeitos, se confundem com qualquer carro original, mesmo aos olhos de especialistas no assunto. “Fiz para dar de presente ao meu filho e acho que a paixão é que move a gente a realizar esse tipo de coisa. Gosto do Jipe, da sua forma e do que ele representou na história automotiva mundial”, discorre Dr.Marco, que nesse instante está construindo uma cópia exata de um Ford Modelo “A”.

Interior funcional e totalmente espartano
Saudade viva - O Jipe no Brasil fez história. Na época da implantação da indústria nacional, era um dos poucos carros ofertados no nosso mercado. Na maioria dos casos vinha, digamos, em ´estado bruto´, com opção de tração nas quatro rodas, banco forrado em plástico, limpador de pára-brisa manual e com a tradicional folga no volante. Sua mecânica, altamente robusta, sempre variou com motores de 4 e 6 cilindros e câmbios de 3 e 4 marchas. Por exigência de mercado surgiram alguns carros com “roupas” diferentes, mas que no íntimo, nada mais eram que Jipes disfarçados, caso da Rural (espécie de SW jurássica), do Jeep “Hippie” (modelo de 1972 com tração 4X2 e que só teve 6 meses de fabricação) e do próprio Aero-Willys, que ganhou a alcunha de “Jeep de gravata”. Um dos mais comentados em Alagoas, chegado em solo Caeté pelas mãos do (então empresário) Dr.Arnon de Mello, foi o Jipinho “Guarassuma”, apelido dado aos modelos 1953/54, que marcaram época rodando pelas esburacadas estradas de terra alagoanas nos anos ´50. Mitológico, adorado, versátil e inesquecível, o Jeep é apenas um Jeep, e isso lhe basta dentro da sua grandeza.
Curiosidade – A origem verdadeira do nome “Jeep” até hoje é bastante discutida. Há quem diga que o termo surgiu do som das duas primeiras letras do Jeep modelo Ford “GPW”. Em inglês, “GP” soa mais ou menos “gi pi”. Outros dizem que esse “GP” vem de “General Purpose” (“uso geral”, em inglês…). Outra “tese” bastante aceita é a de que “Jeep” foi originalmente usado num desenho animado, como nome de um cachorrinho de estimação do famoso marinheiro Popeye. (Fotos: divulgação FBA)