Lancia Delta S4 Stradale caracterizou-se por ser um dos mais eficazes carros de rali entre 1985 e 86, gerando vitórias, fãs e tragédias
2 fev
Existem “carros” e “Carros”. Uns nascem, são produzidos em larga escala e somem do mapa após serem descontinuados. Outros, mesmo quando feitos em sequência quase artesanal e com tempo de vida mínimo, viram lenda. É o caso do fabuloso Lancia Delta S4 Stradale que, infelizmente, nunca guiei, mas contarei um pouco da história dessa incrível máquina italiana.
Em meados dos anos 1980, a Audi necessitava aparecer mais para o mundo, obviamente para alavancar sua performance de vendas globais. Criou, então, o (também legendário) “Audi Quattro”, um bólido compacto que acelerava de maneira descomunal, despejando cerca de 600 cavalos de força na sua (já famosa) tração nas 4 rodas. A Lancia possuía o “037”, integrante do conhecido “Grupo B” do WRC (World Rally Championship) campeonato mundial de rali comandado pela FIA (Fédération Internationale de l’Automobile), no entanto, a tração (somente traseira) desse carro o separava anos-luz da eficiência do Audi. Em 1985 surgia a resposta: a Lancia apresentava o Delta S4 Stradale como oponente direto, principalmente, do carro alemão das 4 argolas.
Sangue novo >> Substituto oficial do 037, o Delta S4 nasceu a partir de um estudo minucioso dos regulamentos da FIA para o Grupo B. Bastante evoluído em relação ao modelo anterior, o veículo veio com motor central e com uma excepcional tração integral que disponibilizava, inclusive, um dispositivo que permitia ao piloto a opção de escolher a divisão de potência entre os eixos da frente e de trás.

Emaranhado de canos e fios: 550 cavalos despejados numa inteligente tração 4X4 com direito à distribuição de potência entre os eixos dianteiro e traseiro
O propulsor de 4 cilindros tinha apenas 1.759 cilindradas, no entanto, uma combinação explosiva de um compressor (Volumex-Abarth) e de um turbo modelo “KKK” geravam uma fantástica duplicação de potência que atingia picos de 550 hp nas rodas. Dados da época divulgam que o Delta S4 conseguia acelerar de zero a 100 km/h em apenas 2,3 segundos! Dependendo da configuração, a relação peso-potência desse modelo ficava abaixo de 4 kg/cv, um número realmente impressionante.
Por dentro >> Obviamente espartano e com o interior simplificado apenas para as competições, o Lancia Delta S4 Stradale nada mais era que um automóvel superleve e perigosíssimo de se guiar. Foi montado a partir de um chassi tubular e a carroceria era toda moldada em fibra de carbono e Kevlar. As suspensões eram montadas em ´triângulos´ sobrepostos às rodas e a traseira ostentava 4 amortecedores com molas nas partes internas de cada conjunto. Apenas o cockpit dos pilotos era fixo: tanto a parte frontal quanto a traseira eram escamoteáveis para facilitar o trabalho dos mecânicos durante as competições. Bem observado, o Delta S4 é uma grande escultura que parece ter sido moldada a facão, dados os ângulos retos e os cortes radicais com poucos recursos estilísticos. Na lateral das janelas traseiras, por exemplo, há duas “orelhas de elefante” que servem para direcionar o vento, que age como auxiliar extra na refrigeração do motor.
Homologação > Para efeito de homologação, a Lancia construiu apenas 200 modelos S4 para estrada. Isso foi a obrigação legal. Há indícios de que no dia da apresentação dos veículos para a tal homologação pela FIA, nem todos os 200 automóveis estavam, de fato, prontos e completos (com motor, câmbio, suspensão…). Manobras à parte, a verdade é que o mundo ganhou um dos mais belos e interessantes carros de corrida de todas as épocas. A versão Stradale “de rua” tinha, do mesmo modo como os carros de rali, um esperto motor central (1.8 de 4 cilindros) com agradabilíssimos 250 cv de potência. Desses originais, devem existir apenas umas 30 unidades intactas e, pintadas em preto, só duas: uma na Espanha e outra no Japão.
Alegrias e tristezas >> O histórico do S4 foi proporcionalmente vibrante como o próprio carro. O bólido venceu a sua prova de estreia, o Rally RAC de 1985, pelas mãos do piloto Henry Toivonnen. No ano seguinte, Markku Alen faturou o 2º lugar no mundial de pilotos. Em 1986 o carro conseguiu o 1º lugar no campeonato mundial, mas, fiscalizações apontaram indícios de irregularidades no carro e o título passou para o Peugeot 205 T16. Além desses, o Delta S4 foi campeão em muitas provas difíceis na Europa. Um dia, infelizmente, um acidente fatal (no Tour de Corse, em 1986) envolvendo o piloto Henry Toivonen e seu co-piloto Sergio Cresto, marcou o lado trágico desse carro que, além de belas qualidades, também tinha essa vertente venenosa por ser muito ágil e difícil de guiar.
Uma linda carroceria, potência em excesso, carisma inigualável: a combinação que fez do Lancia Delta S4 Stradale um dos mais emblemáticos carros de rali da história. (Fotos: divulgação)


































